sábado, 9 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
VULGARIZANDO A VULGARIDADE
VULGARIZANDO
A VULGARIDADE
O que isto quer
dizer? Não sei. É outra dessas frases que atravessam meu cérebro como se fossem
metais que se lançam ao éter. Porém, refletindo um pouco, não deixo de ter
razão, a vulgaridade está cada vez mais vulgar e, um pouco mais, o vulgar se
tornará banal, isto é, perderá todas as suas qualidades.
Quando ligo a
televisão no programa do Faustão, aquele esqueleto que um dia foi gente, e me
dedico a observar o bailado das bailarinas. Então me pergunto, enquanto alguém
está despencando de uma escada e o Faustão acha graça: onde será que arrumam
mulheres tão lindas? Abro as páginas do jornal e leio que o Senado comprou
oitenta carros novos para os senadores e mais oitenta iphones, para substituir
os carros velhos do ano passado e os celulares velhos da semana passada.
Leio um livro de
auto-ajuda e percebo quanta coisa eu deixo de fazer para me auto-ajudar, como
não ficar estressado, não me incomodar com bobagens, como não rezar dez vezes
ao dia, como não misturar bananas com melancia e como não tomar doze
tranquilizantes. Vai ver é por isto que passo minha vida sem conseguir-me auto
ajudar e, portanto, submetido ao que der e vier. Vou ao jornal de novo e vejo
que esses livros são os mais vendidos do mundo.
Aí, numa
tentativa de desvulgarizar um pouco a vulgaridade, abro um livro de poemas, me
dou conta de que as frases do poeta propõem, com beleza, lirismo e emoção, a
plena ajuda para quem souber ler, mas logo canso, religo a televisão para
assistir o programa do Gugu, que Deus me perdoe. Dezenas de nadegas femininas,
moldadas com se fossem pão recém saído do forno, sacodem ante meus olhos e nem
acho graça. Centenas de seios flatulentos balançam à minha vista e é como se
abacates em crise, desabassem ao mesmo tempo do abacateiro. Então me pergunto:
Onde está à autêntica vulgaridade, aquela que o Chacrinha despejava sobre nós
todos os domingos, sem malícia e sem vergonha? Não existe mais, infelizmente.
A vulgaridade
hoje está tão vulgar, que ninguém mais repara nos bigodes lustrosos, nas
gravatas extravagantes dos deputados federais. Tão vulgar que ninguém nota.
Queria ser do tempo em que a vulgaridade possuía um quê de, sei lá, sutileza,
mistério, uma gênese de reflexão que surgia à simples visão de uma Rita
Cadilac. Na contrapartida, a voz de Nara Leão, a poesia de Chico Buarque, o
show do Chico Anysio elevavam o espírito desarmado, tanta intensidade posta ao
nosso dispor que era possível, com um pouco de boa vontade, apreciar e rir da
vulgaridade.
Hoje não. Hoje,
após assistir o pagode, o funk, o punk, o remelexo da mulata silicone e os
comentários dos ídolos da televisão, sobra um espanto, uma perplexidade, uma
inacreditável incapacidade de compreender como Mais Você, Menos Você, Papo
Calcinha, Papo Cueca, Zorra Total e a Praça é Nossa permanecem no ar, semana
após semana, ano após ano, repetindo, repetindo e repetindo.
A vulgaridade,
vulgar do jeito que está, conseguiu atingir sua finalidade ontológica, sua
razão de ser, seu devir, seu fundamento filosófico: vulgarizar definitivamente
o vulgo. A mídia atual, na incontida ânsia de angariar público, vem
sistematicamente difundindo subprodutos cuja assimilação por parte de segmentos
das camadas média e alta encontra plena aceitação. Isso acontece pela
desqualificação cultural de quem se desenvolveu apenas economicamente. A
cultura se encontra asfixiada e sitiada, em oposição à avalanche do
entretenimento simplório.
Em outras
épocas, havia um sistema educacional (tanto público quanto particular) que se
ocupava de elevar o nível de todos os segmentos. Quem estava culturalmente
deficitário buscava qualificar-se, quem culturalmente estava situado não fazia
concessões de qualidade. Nesse mundo de outrora, um professor universitário
sabia que dignidade conferir ao exercício de sua profissão e à condução de sua
carreira. Como tal, não se prestaria a "experiências" infantilóides.
A própria cultura de massa mantinha certa filtragem.
A culpa,
portanto, não reside na oposição "cultura de massas" x "cultura
erudita". Quando há qualidade, a fronteira se torna flexível. Quando,
porém, há processo degenerativo, a fronteira desaparece para entronizar o
subproduto. A música brasileira, até pouco tempo, em seu amplo arco de
variações, estava repleta de requintadas composições com livre trânsito em
distintos registros. O problema que, a rigor, poucos aceitam publicamente
assumir - até para não passarem por elitistas, preconceituosos e
antidemocráticos - é que o país se está esgarçando em todos os níveis:
político, educacional, cultural e ético.
Quem tem
discurso crítico não dispõe de canais para expressão. Quem predominantemente os
ocupa tende a oscilar entre o tom demagógico e o auto-investimento na imagem,
no marketing pessoal. O consumo de "produtos do entretenimento" está
nivelado por baixo, tornando os segmentos societários indiferenciados. Vale
dizer: o Brasil se caracteriza por um modelo capitalista na sua versão mais
perversa, no tocante a classes econômicas, e por um modelo de vulgarização
totalitária, quanto a padrão cultural. Nessa bastarda combinação, os cérebros
movidos à inteligência vivem confinados, discriminados e recusados.
As autoridades
públicas, em lugar de promoverem políticas de inclusão, acompanhadas de
qualificação cultural, fazem continhas na maquininha de calcular que tanto
somam arrecadações quanto arrebanham votos. Um dia, infelizmente, pelas tantas
escolhas erradas, conheceremos o monstro que, passo a passo, criamos.
Cálita Fernanda Batista de Paula
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